AS MÃOS QUE ESCREVEM

23/08/2012 22:51

 

 

As mãos que escrevem

Estava escrito que ele nasceria num lar modesto que lhe proporcionaria uma vida simples, mas maravilhosa.

Não estava escrito que, ainda bem pequenino, não perceberia a presença num dado momento, e ausência num outro, de adultos que fariam falta no restante da sua vida.
Estava escrito que seria parte da molecada na rua todo o tempo, quando a violência era reconhecida somente em filmes de gangsters, cowboys e histórias de guerra e revolução.
Não estava escrito que teria a estranha sensação da perda de amigos na infância tão precocemente.
Estava escrito que mesmo já tendo irmãos, viveria a feliz chegada de mais um irmão e uma irmã caçula.
Não estava escrito que aos quatro anos de idade levaria o primeiro tombo num veículo de duas rodas.
Estava escrito que sairia ileso deste acidente agarrado ao “pneuzinho” de estepe de uma lambreta.
Não estava escrito que presenciaria toda a agonia do seu pai por este primeiro e último vacilo, o de levar os três filhos mais velhos juntos pra uma “inocente” voltinha.
Estava escrito que, como quase todo moleque do interior, se tornaria um exímio construtor de pipas, papagaios e afins.
Não estava escrito que entraria na escola e reduziria demasiadamente a molecagem na rua.
Estava escrito, imperceptivelmente e por isso a contragosto, que teria acesso a um conhecimento com qualidade no ensino público.
Não estava escrito que perceberia o lento afastamento de amigos que os pais não davam tanta importância aos estudos.
Estava escrito que encontraria novas amizades e descobriria que o mundo era maior que as fronteiras do seu bairro.
Não estava escrito que passaria a perceber que a dura labuta dos seus pais pra lhes proporcionar uma vida modesta, mas digna, era muito sacrificante.
Estava escrito que entenderia algum tempo depois que aquilo era a coisa mais importante e principal razão da vida deles.
Não estava escrito que no momento que eles poderiam começar a colher alguns frutos, o destino os transformariam em órfãos de pai.
Estava escrito que a mãe deles seria muito forte e guerreira pra seguir em frente, e sozinha, na criação dos seus filhos.
Não estava escrito que era permitido a estas crianças e jovens começarem a viver sem a austera, mas justa e doce presença paterna.
Estava escrito que, independente de quaisquer quereres, a vida simplesmente segue o seu rumo, incondicional e continuamente.
Não estava escrito que o mundo também seguiria normalmente em frente, sem se importar com as suas dor e dificuldades.
Estava escrito que viveria na adolescência, em companhia de amigos como irmãos, a mais doce influência da contracultura, paz e amor e Woodstock, em puro rock and roll.
Não estava escrito que está forte influência na adolescência permearia o sentido do seu viver por toda a sua existência.
Estava escrito que a dedicação aos estudos poderia ser a melhor, senão a única, chance de lhes proporcionar melhores oportunidades na vida.
Não estava escrito que um dia ainda muito jovem precisaria partir em busca destas oportunidades.
Estava escrito que descobriria que o trabalho duro e honesto pode não nos tornar rico, mas que com ele conseguimos sempre sobreviver pelas nossas próprias mãos.
Não estava escrito que a primeira paixão da sua vida se tornaria a única por toda ela.
Estava escrito que o primeiro amor da sua vida se tornaria o único por toda ela.
Não estava escrito que seria possível duas paixões paterna surgirem nele precocemente e de forma tão arrebatadora.
Estava escrito que mudaria o seu olhar sobre o mundo pelas lentes de uma máquina fotográfica e um velocímetro no meio do guidão entre dois espelhos.
Não estava escrito que um motociclista “veloz e habilidoso” sofreria as duras penas de alguns acidentes.
Estava escrito que um motociclista “jovem e impetuoso” sofreria as duras penas de alguns acidentes.
Não estava escrito à época que um jovem casal protagonizasse um “Easy Rider” por muitas centenas de quilômetros em lua de mel sobre duas rodas.
Estava escrito que estas aventuras e paixões seriam as causas do tão recentemente citado triângulo amoroso entre estes enamorados e a motocicleta.
Não estava escrito até onde a mente daquele moleque construtor de pipas, carrinhos de rolimã e outras engenhocas poderia levá-lo.
Estava escrito que esta eterna busca do novo o levaria as alturas, literalmente, e a provar que fazer voar é bem mais difícil que voar.
Não estava escrito que a vida seguindo, e a família crescendo, os levariam a diminuir as distância e freqüência das viagens em duas rodas.
Estava escrito que a maior felicidade da vida deles, como na dos seus pais, quase se resumiria naquelas três “criaturazinhas”.
Não estava escrito que neste novo mundo saberiam o certo e errado na construção de um bom lar pra eles.
Estava escrito que no processo de criação, errando menos pra acertar mais, temos grandes oportunidades de aprender a ser bons pais e melhores pessoas.
Não estava escrito que antes de entender que este processo de criação havia praticamente terminado, as “criaturazinhas” partiriam mundo afora, onde pela distância, centenas passam a ser milhares de quilômetros, e milhares, que eles estão em outro planeta.
Estava escrito que cada um deles encontraria o seu caminho e iniciaria por eles próprios um novo ciclo.
Não estava escrito que, por algum tempo, teriam que viver com este sentimento de perda e quase abandono.
Estava escrito, meio a contragosto, que retomariam a sua própria vida, a partir de um determinado e não identificado ponto dela no passado.
Estava escrito que acompanhando o caminhar destas “criaturazinhas” ao longe, “o longe” em duas rodas voltaria a ficar alcançável pra eles.
O que sempre estará escrito, e pra todos nós, é que a vida é assim, construída em detalhes por acontecimentos que queremos que sejam escritos, e outros, que nunca desejaríamos que fossem, mas que ainda assim, e infelizmente, o serão.
O que está sendo escrito neste instante é a nossa dedicação e intenção de viver uma vida em duas rodas na sua plenitude, com muitas estradas, amigos e destinos incertos, acompanhada de uma visão sempre otimista de futuro, mas consciente que “OUTRA MÃO” pode estar escrevendo diferentes e futuros contextos.
Como esta escrita está acima da nossa própria redação, e por ora, continuamos escrevendo nestas simples linhas a nossa compreensão da vida, exprimindo que nela devemos fazer o nosso melhor pra que o mundo seja decente pra todos, transformando isso na razão maior do nosso viver, que acreditamos ser os princípios e valores que norteiam a nossa existência como verdadeiros motociclistas.
Pasmem.
Escrevendo a parte que nos cabe da história pelas nossas próprias mãos.

Texto e imagem: Reinaldo Brosler

 

VP Águias do Vale MC
Administrador dos Site Riders Of Freedom, Canal YouTube RidersFreedom e Grupo Facebook Riders Of Freedom
http://www.ridersoffreedom.com.br/
http://www.youtube.com/RidersFreedom
https://www.facebook.com/groups/ridersoffreedom/