OSCAR HORÁCIO DIAS MOTOCICLISTA ARGENTINO QUE TEM O CORAÇÃO DO TAMANHO DO MUNDO

03/01/2013 00:57

 

Oscar Horacio Diaz - Motociclista argentino de 53 anos, residente em Ushuaia

Entrevista por Otavio Araujo (Gugu - 70 anos) 
e Policarpo Jr (40)

Oscar Horacio Diaz(foto acima) é um motociclista de muita vivência e personalidade, aos 53 anos vive na cidade de Ushuaia na Argentina, a mais austral do mundo, na província de TIERRA DEL FUEGO e recebe de braços abertos motociclistas de todos os cantos que chegam a cidade conhecida como “FIN DEL MUNDO”.

Rock Riders tomou conhecimento de que você é um grande anfitrião de brasileiros no Ushuaia, como isso aconteceu?

R: Nos anos 90 comecei a viajar pelas rutas da Patagônia, sempre trocando de motos e viajando cada vez mais e mais longe, sempre conectado com outros motociclistas da Argentina e participando de encontros e conhecendo mais gente, sendo bem recebido em todos os lugares por onde passei. A partir dessa época, decidi passar a receber e apoiar os motociclistas que chegassem a nossa cidade, mesmo que não fossem aqueles que me haviam recebido dessa forma apoio todos sem distinção que cheguem ao Ushuaia sobre duas rodas. Enfatizo que se uma minoria não merece minha atenção, temos em comum a mesma paixão pelo motociclismo e isso procuro compartilhar.

Então deve conhecer motociclistas por todo mundo?

R: Sim, essa convivência de tantos anos me permitiu conhecer viajantes de todo mundo, com os quais sempre mantenho contato, tanto em visitas que lhes retribuo como via internet, sempre estreitando  um grande abraço de motociclismo e amizade que se abriu a partir de conhecê-los. Tenho muitos amigos de rutas e graças a Deus compartilhamos os mesmos gostos.

Dessa forma tenho muitas amizades e as pude comprovar em minha última viagem quando por infelicidade tive um acidente, no qual minha esposa se feriu mais e fui envolvido por grande parte da comunidade de motociclismo do mundo. A todos quero agradecer a preocupação por nossa recuperação e retorno ao lar. 

Como define seu perfil pessoal e como motociclista?

R: Sou nascido “por acidente” em Quilmes, Província de Buenos Aires, criado no campo, passei a adolescência em Colon, Entre Rios onde cursei e fiz carreira em técnico de automóveis, técnico de máquinas e ferramentas, obtive licença de maquinista de bordo, viajando em seguida em barcos por ultramar e pesca. Chegando a Tierra Del Fuego me dediquei a motores estacionários e barcos. Trabalhei na Marinha de Guerra Argentina, fazendo uma boa carreira. Meu hobby sempre foi a preparação de motores de kart e motos.

Desde 8 anos que rodo em motocicletas, já participei de corridas de enduro e velocidade e também no Kart. Calculo que tenha rodado cerca de um milhão de km sobre as motocicletas. Tive um grave acidente e estive muito tempo em recuperação, então decidi não mais competir e fiquei cerca de 12 anos sem montar em uma motocicleta. Um dia a trabalho em Buenos Aires encontro a venda uma moto HONDA CVX 1.050 a qual comprei e mandei levar para minha cidade sem nem ao menos tê-la testado. Uma vez no Ushuaia sai para experimentar a nova moto e parecia que não havia passado 12 anos e sim 12 horas, a partir desse momento essa paixão tomou conta de mim definitivamente, nunca mais competi, apenas viajei desfrutando essa maravilhosa sensação de liberdade.

Já esteve no Brasil? Que lugares conheceu?

R: Sim, já estive no Brasil 4 vezes, a primeira vez viajando solo cheguei até o Rio Grande do Sul. Nas viajes seguintes conheci Porto Alegre, São Paulo, Curitiba, Foz do Iguaçu, Ilhabela, Florianópolis, Rio de Janeiro, estive num encontro internacional de moto em Santa Maria, RS, e fiz a costa do Brasil até chegar a Búzios, RJ.

Quais os destinos mais remotos que já percorreu nas Américas?

R: Cheguei até a Baja Califórnia, percorri quase todo México, Colômbia, conheci todo Equador, Peru, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia.

Qual seu hobby além das motos?

 R: Pela minha profissão criei um projeto de fazer um museu de motos e me dediquei a comprar motos antigas com mais de 20 anos para restauração. Cheguei a ter 52 motos, mas graças a nossas políticas de Estado que descrevo como Argentina Bananera, terminei o projeto e comecei a vender as motos. Hoje me restam 22 e destas desejo ficar com apenas 10 que serão de minha coleção privada.

Nos últimos anos em virtude de minha formação de escola técnica, dedico minhas horas livres a manutenção de minhas propriedades que alugadas hoje me dão tranqüilidade para poder viver sem trabalhar.

Relate algum acontecimento interessante durante uma viagem de moto.

R: Tenho uma infinidade de acontecimentos vividos durante minhas viagens de moto pelas Américas, problemas nas fronteiras, com policiais rodoviários, em hotéis, nas estradas, na entrada de cidades importantes, difícil enumerar apenas um, mas vai esse:
Em dezembro de 2010 os amigos do Moto Clube Fantasmas do Vento da cidade de Punta Arenas me convidaram para um grande “motoassado” e “moto encontro” na localidade de Cerro Sombrero, no Chile.

Nessa época, pelo início das férias, muita gente que habita a ILHA DA TERRA DO FOGO, sai em viagem e são 4 aduanas, duas do Chile e duas da Argentina. Chegando as fronteiras, com nosso grupo de 20 motociclistas caiu uma tempestade com muita chuva e ventos de cerca de 90 km/h. As filas para passar as fronteiras tinham mais de 3 km de comprimento, mas graças  ao pessoal das fronteiras que me conhece como “o motoviajero  mais austral do mundo” e que já me viram levar uma infinidade de europeus como guia pelas rutas patagônicas pude explicar pessoalmente que levava aquele grupo de motociclistas a um grande “motoassado”  e que nos esperava o Prefeito da localidade. Prontamente abriram um guichê exclusivo para nosso grupo de motociclistas e passaram uns 25. Chegamos a tempo ao grande assado de cordeiro patagônico.

São muitas histórias que terei prazer em contar pessoalmente aos leitores e amigos do Rock Riders.

A ajuda que fornece aos motociclistas que chegam AL FIN DEL MUNDO são sempre reconhecida ou retribuídas?

R: Quero esclarecer que tenho minha oficina completa, montada onde  realizo meus trabalhos pessoais, entretanto se os viajantes não conseguem solucionar algum problema em sua moto nas oficinas credenciadas/habilitadas por serem complicados, ajudo a todo e qualquer viajante motociclista, sempre que possa, uma vez que é complicado conseguir peças de reposição devido as grandes distancias que temos com o resto da civilização. Como sempre digo: NÃO EXISTE POSSIBILIDADE DE NÃO SE CONSEGUIR REPARAR UMA MOTO QUE FOI INVENTADA PELO HOMEM E QUE O HOMEM NÃO CONSIGA REPARAR.

A ajuda que tenho dado aos viajantes em minha política de motoviajero , jamais cobrei por nenhum serviço nem pedi retribuição alguma se tive a grande emoção de uma amizade que vai se estender pelo tempo, e para mim isso é que vale. Sei quanto custa aos motociclistas chegar a essas terras, da mesma forma que custa a mim chegar a longínquos lugares. Não existe lucro que possa superar essa paixão.

Por sorte tenho minha grande família que me apóia em tudo isso e também ajudam a ser anfitriões daquele viajantes que chegam em suas motos.

Qual o modelo de moto que mais aprecia?

R: Sempre digo que a melhor moto é aquela que você tem, e não há outra. Essa é a que a pessoa gosta e para ela é a melhor do mundo. Claro que tão pouco existe “a melhor moto do mundo”, mas no meu entender, depois de ter montado tantas motos em minha vida, a que me apaixona e seria a última moto na minha vida, uma Honda GoldWing 1.800cc. Mesmo com suas limitações com meus 53 anos, não quero renegar, mas atualmente rodo na minha BMW Adventure GSR 1.150 ano 2005, minha desde O km e que já superou os 100.000 km sem nenhuma insatisfação.

Já sofreu algum acidente e o que aprendeu com ele?

R: Já sofri uma infinidade de acidentes, um muito grave, os outros considero normais. Quem diz que nunca teve um tombo por mais bobo que seja é porque nunca andou de moto. Fundamentalmente tem que levar em conta que nunca se pode ter demasiada confiança, uma vez que são apenas máquinas. Quem as maneja quem tem habilidade e responsabilidade de adulto para conduzi-las. 

Pertence a algum moto clube?

R: Não, Policarpo, não pertenço a nenhum e tão pouco represento algum, entretanto participo colaborando com todos pois considero que depois de tantos anos conduzindo motos posso ensinar muitas coisas, relatando minhas experiências para que outros não cometam os mesmos erros que cometi no passado.

Prefere viajar solo ou com grupo de amigos?

R: Sempre me caracterizei por viajar solo quando as viagens são longas. Em 3 oportunidades viajei em companhia de 5 ou 6 amigos, mas foi um fracasso, não por serem más pessoas, mas porque para viajar em grupo todos devem ter a mesma meta e jamais deve prevalecer o gosto ou preferências individuais de cada um.

Verdadeiros amigos e companheiros de viagem são os que conhecemos a muitos anos. Amigos das reuniões, dos churrascos, das saídas curtas esses chamo de “amigos do momento”. Quando se parte com 3 companheiros ou mais, uma viagem de 8 dias está bem, mas depois desse tempo começam os problemas, quando sugerimos algo não dão a devida importância, depois de 12 dias um começa a reprovar o outro, depois de 15 dias precisamos nos esforçar muito para  não ter dor de cabeça a cada parada uma discussão e isso faz com que a amizade perca o interesse e a amizade, a camaradagem entre os viajantes, por isso viajo solo.

Quais seus conselhos para os motociclistas que pretendem empreender uma longa viagem de motocicleta?

R: Meu primeiro conselho, e o principal é que um viajante que empreende uma longa viagem tem que ter claro em sua cabeça que sua viagem é a liberdade. Liberdade de curtir o seu tempo. Liberdade de sua personalidade. Liberdade para curtir o vento na cara. Liberdade dos demais. Liberdade dos que seguem adiante, liberdade dos que seguem atrás de nós. Liberdade de aceitar o que nos dão e o que nos tiram. Liberdade de entender que todos nas estradas somos iguais.

Numa viagem longa, deve-se entender que é uma viagem de prazer, apenas de prazer, por isso se deve planejar, calcular o tempo que se dispõe e distribuí-lo entre a partida e a destino. Isso implica saber que não se pode fazer mais do que o possível.

Porque? Porque só se pode viajar de dia com a luz natural, senão não se aprecia nem se fotografa o que se veio conhecer. De noite não enxergamos com quem cruzamos nas estradas, apenas somos ofuscados pelos faróis. Porque à noite a adrenalina supera os limites da sensatez e isso te desgasta, te debilita. Porque os amigos se encontrar nas estradas de dia, a noite estão em festas, tomando cerveja.

Sigo dizendo que se deve revisar a motocicleta ANTES de começar a viagem e não ficar fazendo reparos nas estradas, que deveriam ter sido executados na oficina. Outra coisa seria antes de empreender uma grande viagem, conhecer bem os que lhe irão acompanhá-lo.

Em todos esses anos de viagem, conhecendo gente com características diversas, acompanhantes, amigos e viajantes solitários nunca conheci uma pessoa que chegasse a conclusão diferente sobre companheirismo de viagem, tanto é que todos os viajantes europeus que chegaram a estas latitudes, até dando a volta na América, 90% viajam sozinhos e 7% viajam  em companhia de apenas 2 e somente 3% com não mais de 3 companheiros uma vez que esta é a característica de todos nós que empreendemos grandes viagens.

Uma das vantagens da viagem solo, é que numa eventual quebra da motocicleta, quem passa logo pensa em ajudar. Se estamos em 3 ou mais motocicletas ninguém se preocupa em, ajudar, coisa como 1 em um milhão...

Percebi em muitas viagens que quando estou sozinho abastecendo minha motocicleta as pessoas passantes ou de outros veículos chegam perto e perguntam: de onde venho, para onde vou, quanto custa essa moto, quantos quilômetros faz com um litro e outras perguntas mais. Quando eventualmente viajo em grupos, coisa que não gosto de fazer, as pessoas apenas nos olham com curiosidade mas não se aproximam, por não saberem como serão recebidas.

Esse contato com pessoas diferentes, de outros lugares faz parte do espírito do motociclismo, esta é minha humilde opinião, por isso digo que uma viagem de moto é um prazer, cheio de emoções e aprendizados.

 

 

Transcrito do http://www.rockriders.com.br