UM MOTOCICLISTA NA GARUPA

24/12/2013 19:27

 

UM MOTOCICLISTA NA GARUPA

Após mais de 50 anos pilotando, tive minha primeira experiência de viajar na garupa.

Tendo operado o ombro e impossibilitado de pilotar por meses seguidos, não via a hora de sentir o vento, a vibração do motor sob minhas pernas, a sensação de liberdade que sabemos não existe igual à proporcionada pela motocicleta.

Após fazer dois meses de intensas seções de fisioterapia, lembramos com saudade como é prazerosa a liberdade nas estradas, o prazer das curvas, até da chuva batendo sobre o capacete.

Um dia desses um “anjo” me ligou do Rio dizendo que passaria em casa para uma rápida visita. Fiquei muito alegre, meu amigo estava saindo de viagem e seria bom além de calorosamente abraçá-lo poder conversar sobre nossa paixão, o motociclismo.

Experiente viajante, Eduardo sempre pilotou com maestria sua poderosa BMW, em poucas horas ele estava chegando a Taubaté, e você certamente conhece a “eletricidade” criada no encontro de dois motociclistas bem viajados, amigos e sempre com sede de estradas...

Gugu, vamos comigo fazer um passeio pelo interior?
R- De garupa... nem sonhando !!!

Conversa vai, conversa vem, ele foi me instigando... conversamos até tarde e resolvi que faria uma nova aventura no motociclismo, tal foi a firmeza de suas palavras e a vontade de proporcionar ao amigo enclausurado algumas horas de prazer sobre uma motocicleta.

Depois de tantos anos e quilômetros rodados pilotando solo por diversas estradas, cidades e países, seria uma experiência diferente uma viagem como garupa do Eduardo.

Partimos no dia seguinte de Taubaté em direção a Rio Claro, pela via Dutra, Carvalho Pinto, D. Pedro I, Anhanguera e Washington Luís.

Minha nossa, que diferença!!!

Pilotar é uma coisa, garupa é outro mundo... uma sensação de dependência, uma posição estática, inoperante, em constante suspense...

Nos primeiros quilômetros, ainda dentro da cidade, quase pedi para voltar para casa e seguir para minha seção de fisioterapia, mas ao entrar na Dutra, a confiança que o piloto e a moto me transmitiram já era enorme, comecei a relaxar e a curtir, depois de três meses sem sentir o prazer de rodar de moto, é uma sensação indescritível.

Na Carvalho Pinto já me sentia um co-piloto, termo que o Eduardo sempre fez questão de repetir. Nunca pensei que fosse curtir tanto; a BMW é uma moto que não curto, mas transmite muita segurança, e o Eduardo é extremamente cuidadoso e competente em sua pilotagem, visto que depois de milhares de quilômetros nunca teve um acidente sequer, assim como eu.

Você já carregou na garupa de sua moto um amigo de 100 kg por 600 km? Você já imaginou a vontade que eu estava de sentir a sensação de liberdade, a aceleração, as ultrapassagens, o vento? Imagine a responsabilidade e o cuidado ao carregar um amigo ainda em recuperação de uma cirurgia de ligamentos do ombro?

Bem, foi um prazer, uma realização, a melhor coisa que me aconteceu nos últimos meses, o cuidado que ele teve comigo, sempre indagando com o polegar esquerdo virado para cima se eu estava bem, confortável. Sua preocupação e gentilezas não tenho como descrever...

Na ida ele foi tocando leve numa batidinha de 120/140 e nos pedágios entregava um saco plástico transparente com notas e moedas nas cabines e sorrindo e dizia: - “Sirva-se, por favor”, todos os atendentes sorriam, retiravam a quantia necessária e recolocavam o troco e o recibo no saco – uma forma muito prática e simpática de pagar pedágios.

Meu cérebro liberou grandes descargas de emoção: adrenalina, endorfina e dopamina, deixando-me preparado para a luta ou para a fuga, capaz de amortecer a dor e pronto para o prazer.

Na volta eu senti o que é realmente o motor dessas BMW... impressiona.

Na vida ninguém joga com cartas marcadas, e a gente tem que aprender a perder e a ganhar

Nessa pequena viagem que ganhei de presente, tive uma marcante experiência, uma lição como se deve tratar o garupa, sempre cercado de cuidados e gentilezas, foi uma aula de cortesias, nem sei se eu merecia tanto.

Definitivamente a garupa da BMW GS 1200 ADV não foi projetada para minha estatura e peso, o calcanhar encosta nas malas laterais e o pedal não apoia os pés devidamente, cansando as pernas e enroscando na calça do piloto.

Foi uma experiência fantástica

Diferente, mesmo eu estando ainda fragilizado, mas devido à generosidade e a atenção do Eduardo, curti muito essa minha nova experiência no motociclismo.

Obrigado amigo, um dia a gente cria juízo.

Otavio Araujo – Gugu 

71 anos, motociclista a mais de 50.