VÔOS DE NOSSAS VIDAS

01/04/2012 14:27

 

 

 

Vôos da nossa vida

Completado no último mês de janeiro os 36 anos de um vôo alçado na adolescência, da cidade natal e aos 17 anos de idade, provindo da mais que certa e necessária labuta para o sustento próprio e ajuda à família.
Da mais que certa e necessária sobrevivência.

Vindo de uma afortunada e grata formação num colégio técnico do estado (http://www.feg.unesp.br/~ctig/), uma exceção até hoje em ensino de excelência e gratuito, pus-me a iniciar minha vida de empregado registrado numa grande indústria química em São José dos Campos-SP.
Por aptidão e próprio desejo, a área escolhida foi a de projeto e desenvolvimento de produto, que no caso da indústria química, se materializou em suas instalações industriais.
Toda a minha inquietude na adolescência, e grande oferta de emprego na indústria ao final da década de 70 e início de 80, me fizeram percorrer 3 destas grandes indústrias em pouco mais de 6 anos.

Uma pausa pra não se assustarem e pra mostrar que não vou me distanciar do que pra nós é foco, ao final do primeiro ano empregado, surgiu a primeira motocicleta, uma Honda CG 125 nacional, onde todas as outras à época, com raras exceções e proibitivamente, eram importadas.
Lembrando que com o fechamento das fronteiras e proibição da importação em 1976, elas já eram mais e passaram a ser mais ainda artigo de luxo e de alguns poucos privilegiados.

Momento seguinte, depois destas 3 importantes experiências, surgiu o 4º emprego registrado, numa indústria que hoje é considerada dos sonhos e que mais que qualquer outra, tem literalmente o ato de voar como síntese de sua criação e contínua existência.
Nesta, e num piscar de olhos, passaram-se 30 anos, completados neste mês de março, como parecessem menos, muito menos.

Antes que morram de tédio e interrompam esta leitura, lhes certifico que este introdutório, que está parecendo mais um programinha de auditório, mais um episódio de “esta é sua vida”, será interrompido agora, dando outro curso a esta história, mas um mesmo sentido.

Esta não é a minha história apenas, guardadas algumas peculiaridades, tenho certeza que é a história de muitos de vocês.
Principalmente de motociclistas, triciclistas e alguns outros corajosos aventureiros.
Nestes, o ato de “alçar vôo” está no DNA. A inquietude, na constante procura de algo novo e desafiador, faz parte do modo como cada um pratica o seu viver. Desde sempre.

A gente se depara hoje em dia com muitos termos ditos modernos, coisas do tipo e expressões “pensar fora da caixa”, “mind set”, “quebra de paradigmas” e muitos outros, que podem ser perfeitamente traduzidos pela maneira que fizemos inúmeras coisas a vida inteira, entre todos estes nossos “vôos alçados”.

Seja no seu início, quando arrumávamos madeira de caixotes, parafuso “grosso” para o eixo da direção e rolamentos usados em ferro-velho, sem dispor de dinheiro algum, pra montar os carrinhos de rolemã. E um diferente do outro, com o estilo do seu criador. Que nos tempos modernos se exprime como a “assinatura” do seu criador ou designer.

Haja inovação, que hoje é uma obrigatória busca, e antes era pura auto-realização, traduzida pelo entusiasmo e pura diversão.
Quando o nosso olhar, entre andanças pelos quintais, campos e morros, enxergava ao longe a forquilha perfeita pra construção do estilingue, principalmente se fosse de goiabeira, pela combinação de grande resistência e “elasticidade”. Que me desculpem os neoverdes, pois mesmo com este pequeno mau trato, elas continuariam frutíferas a vida inteira, não fossem as construtoras quererem a “verticalização” do mundo. Que pode ser moderno, mas é uma vertente inescrupulosa e destrutiva das antigas.

Os vôos sempre se sucedem na nossa vida, e são experimentados em todos os momentos dela.
Mesmo hoje, no trabalho, quando não exercendo o sentimento de parecer que estamos à voar com as nossas motocicletas, ao encontro de lugares e pessoas por este país ou fora dele, estamos com aquele olhar de “moleque”, aquele olhar que gera perguntas, como “não tem outro jeito de fazer isso?” ou “porque realmente queremos isso?”.

Enfim, estes “issos”, entre outras coisas, me fazem lembrar Antoine de Saint-Exupéry, com o seu “Pequeno Príncipe”. Que nem é tão “moderno”, pois foi publicado em 1943. Mas é. Que nem é tido como leitura de adulto. Mas é.

Tem uma passagem nele que descreve algo maravilhoso, quando o Pequeno Príncipe pede ao piloto da 2ª Guerra Mundial junto à seu avião danificado e em pleno deserto do Sahara, que desenhe uma ovelha pra ele. O piloto o faz. Na primeira tentativa não consegue atender a expectativa do Pequeno Príncipe, pelo desenho não parecer uma ovelha. Todas as outras tentativas em vão, são precedidas de comentários como “ela está com cara de doente”, “não é uma ovelha, é um bode, pois têm chifres”, e aí por diante.

Inconformado por não poder atender um simples pedido daquele doce Pequeno Príncipe, ele pensa e desenha uma caixa com dois furos, e faz o seguinte comentário: “Saindo uma ovelhinha jovem e com muitos anos de vida pela frente”.
Quando o Pequeno Príncipe olha a caixa, reclama: “Cadê a minha ovelhinha?”.
E o piloto prontamente informa que está dentro dela e pede pra ele olhar pelos furos. Segue-se então a exclamação: “Nossa! Que legal! Gostei viu... Era isso mesmo que eu queria.”

Cada pessoa é única, e seu olhar para todas as coisas também. Por mais que tentemos decifrar como cada um vê qualquer coisa, nunca conseguiremos exprimi-la pra ele na sua exatidão.
Portanto, é melhor deixá-la enxergar com os seus próprios olhos, pois o extrato deste olhar feito por ela que é o mais importante.

As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, como nós motociclistas, triciclistas e corajosos aventureiros, e por todos os nossos caminhos e viagens, as estrelas podem ser nossas guias e pura contemplação. Para outros, elas não passam de pequenas luzes.

Nestes 30 anos no desenvolver e fazer voar “um objeto mais pesado que o ar”, mesmo não sendo um amante do literalmente “estar sempre à voar”, continuamente me fiz valer deste diferente olhar pra todas as coisas, para o mundo. Se valendo também de um outro importante ingrediente em tudo que possa fazer, se valendo de um saudável bom humor, mesmo quando parecemos sem saída.
Como nessa colocação anterior, de não ser exatamente um amante do “estar sempre à voar”, mesmo desenvolvendo estes “objetos”, e quando indagado disso, com humor completava: “Porque você acha que a Sua Santidade, o Papa, beija o chão quando desce do avião?”

Para este diferente olhar, deixo-os com Gilberto Freire e com: “...nunca [...] plenamente maduro, nem nas idéias nem no estilo, mas sempre verde, incompleto, experimental.”

E como amante do motociclismo, e da vida, deixo-os com o próprio Antoine de Saint-Exupéry, e com: "Em um mundo que se fez deserto, temos sede de encontrar companheiros."

Bon Voyage, e olhar.